Fotos: Vinicius Becker (Diário)
Imagine um mapa. Um traçado revela o caminho que a água percorre até chegar às casas de milhares de santa-marienses. O ponto de partida fica a 22 km em linha reta do centro de Santa Maria: é a barragem Rodolfo Costa e Silva, localizada entre Itaara e São Martinho da Serra e também conhecida como barragem de Val de Serra. Ali, onde a paisagem é composta por uma imensidão de água, o abastecimento começa a ganhar forma. No mapa, essa estrutura está em um ponto mais alto, o que permite que, por gravidade, a água avance pelo Rio Ibicuí-Mirim, por 7 quilômetros, até a barragem Saturnino de Brito, em São Martinho da Serra.
Dali, o trajeto segue por três grandes tubulações, de 50cm, 60cm e 80cm de diâmetro, por mais de 24 km em meio ao mato (são 16 km em linha reta, mas a rede faz várias curvas no trajeto), passando por cima do Morro das Antenas e chegando até a Estação de Tratamento de Água (ETA), na Vila Vitória, em Santa Maria, onde a água bruta passa por etapas físicas e químicas antes de ser distribuída a 129.207 mil casas, apartamentos e empresas. Tudo isso funciona graças à estrutura e ao trabalho de 200 funcionários da Corsan, além de 120 indiretos. Ao traçado, soma-se a barragem do DNOS, responsável por 30% do abastecimento.
Para entender por onde passa a água que bebemos, a reportagem do Diário foi até esses locais e percorreu todo esse caminho, desde as barragens até a circulação pelas ruas.

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As três barragens
- Rodolfo Costa e Silva (Val de Serra) – 30 metros de altura, 273 hectares e 23 milhões de metros cúbicos (23 bilhões de litros)
- Saturnino de Brito – 6 metros de altura, 5,7 hectares e 315 mil metros cúbicos (315 milhões de litros de água) de capacidade
- DNOS – 12 metros de altura, 65 hectares e capacidade de 3,8 milhões de metros cúbicos (3,8 bilhões de litros de água)
Barragem Rodolfo Costa e Silva: a imensidão de água que abastece Santa Maria

A barragem Rodolfo Costa e Silva, conhecida como barragem de Val de Serra, fica localizada na Bacia Hidrográfica do Rio Ibicuí. Conforme o coordenador de operações da Corsan, Uillian Kemmrich, ela tem um papel importante na regularização hídrica. Ou seja, nos momentos de maior volume de chuva, a barragem acumula. Isso permite que, no verão, quando o consumo é maior, exista um volume reservado. Mesmo se parasse de chover, a barragem de Val de Serra seria suficiente para abastecer Santa Maria por quase um ano.
– Isso permite que, em momentos como o verão, tenhamos uma maior disponibilidade hídrica. Importante dizer, também, que temos uma diversidade de bacias hidrográficas abastecendo Santa Maria. Isso permite uma maior resiliência – afirma Kemmrich.

Existem diferentes mecanismos que permitem regular o volume de água na barragem. Uma delas é a comporta, uma estrutura mecânica que permite controlar o fluxo de água, regulando o nível e a vazão. A outra forma é o vertedouro, que na estrutura de Itaara, é uma espécie de escadaria em que o volume de água pode ser liberado ao decorrer do ano caso o nível da represa atinja o limite de segurança da barragem. É que explica o coordenação de operações:
– Até determinado nível, ele (o vertedouro) retém a água e, após esse nível, que é um nível de segurança, ele vai vertendo a água para manter determinado volume. Por que isso é importante? Porque esse dispositivo faz com que o volume não seja desprendido de uma única vez, o que poderia gerar problemas, como enxurrada.

Qualidade
A localização das barragens também é determinante para a qualidade da água que chega às torneiras de Santa Maria. O coordenador de operações explica que as estruturas estão inseridas em áreas bem preservadas, muitas delas dentro de reservas ambientais, o que contribui para a manutenção de uma água de elevada qualidade desde a captação. A proteção do entorno reduz a interferência de atividades humanas e ajuda a manter as características naturais do recurso hídrico.
O sistema conta com tecnologia que permite acompanhar, em tempo real, a situação das barragens. Conforme a Corsan, o monitoramento é feito 24 horas por dia. Os dados são enviados para a central de controle por meio de sensores instalados nas estruturas, que substituíram métodos antigos de medição, como as réguas utilizadas no passado para verificar o nível da água.

– Temos um sensor de nível, que permite que a gente tenha uma análise de quantos metros de profundidade temos na barragem. Junto com esse sensor, temos um sistema de telemetria que é enviado para a nossa central de monitoramento. Então, conseguimos acessar de forma remota, 24 horas por dia, o volume dessa barragem – afirma Kemmrich.
Saturnino de Brito: a barragem de 86 anos encravada no vale

Abaixo da barragem Rodolfo Costa e Silva, que teve sua segunda represa inaugurada em 1999, fica a barragem Saturnino de Brito, de 1940, que recebe a água da primeira barragem, que vai descendo de Val de Serra por meio do leito do rio. Na Saturnino, a paisagem impressiona pelos morros de ambos os lados, a mata no entorno e uma queda d’água que, de longe, lembra uma cascata. Para chegar até lá, é preciso percorrer mais de 20 km a partir de Santa Maria, saindo pela estrada para São Martinho e fazendo um trajeto entre os morros, ao longo do Rio Ibicuí- Mirim. Uma das características da barragem é justamente esse vertedouro contínuo, que mantém o escoamento permanente da água e contribui para a estabilidade da estrutura.
– É uma barragem um pouco diferente, é uma barragem de contraforte. É uma barragem menor, mas com uma estrutura mais robusta porque ela fica no meio de um vale. Aqui, a passagem de nível é sempre constante, ao contrário da barragem anterior, que tem o dispositivo para regular a saída de água – afirma Kemmrich.

É na estrutura que ocorre a primeira captação que vai para a Estação de Tratamento de Água (ETA) por meio das adutoras, que são grandes tubulações responsáveis por abastecer a cidade. Na barragem, a água segue para a ETA por gravidade. Já em outros pontos, pode ocorrer também por bombeamento – geralmente em locais em que a água sai de um local mais baixo para um mais alto.
– Aqui é o nosso primeiro ponto de captação. Temos as adutoras que alimentam a cidade e também os nossos sistemas de bombeamento, que ficam mais abaixo. Uma parte da água segue por gravidade até a estação de tratamento. Mais abaixo, temos outra captação que utiliza o bombeamento e manda para a estação. Esses sistemas são complementares. Em Santa Maria, temos diferentes fontes de abastecimento e diferentes formas de utilizar essas fontes – detalha o coordenador durante a visita à barragem.
É nesse ponto de captação que ocorre o primeiro “filtro” do processo. Um gradeamento instalado na entrada do tubo impede a passagem de galhos, folhas e outros materiais sólidos, protegendo as adutoras e os equipamentos utilizados ao longo do sistema.

Recentemente, a Saturnino de Brito passou por um processo de modernização. No início de 2025, a Corsan investiu mais de R$ 2 milhões na reforma da estrutura e na atualização dos dispositivos de segurança, o que reforçou a confiabilidade do sistema. A barragem ainda conta com monitoramento 24 horas por dia. O acompanhamento não se restringe aos sistemas automatizados: equipes técnicas realizam visitas semanais ao local para verificar o funcionamento da estrutura. A cada semana, são analisados indicadores como o comportamento do vertedouro, o nível da água e as condições gerais da barragem.
– Costumamos dizer que a barragem sempre dá sinais, nunca acontece um rompimento do nada. Por isso, a importância do checklist e do monitoramento semanal, em que avaliamos a estrutura lateral da barragem, a quantidade de água que está vertendo, se surgiu alguma trinca, além de inspeções com equipamentos específicos – ressalta Kemmrich.
Segundo ele, o conjunto de ações preventivas assegura um sistema confiável:
– Temos barragens com uma qualidade ótima de abastecimento.
Captação no DNOS e no Rio Ibicuí-Mirim
Além das barragens, o sistema de Santa Maria conta com captação no Rio Ibicuí-Mirim. Até então, a água seguia o caminho por gravidade. Nesse ponto, entra mais um elemento de captação que integra o sistema da cidade: o bombeamento, que atua de forma complementar.
– A barragem regula o volume hídrico que chega ao ponto de captação, o que faz com que aqui a água seja bombeada para um sistema de tubulação de 800 milímetros até a Estação de Tratamento – explica o coordenador de operações da Corsan.

Nesse ponto, o sistema passou por adaptações após as enchentes de maio de 2024. Em uma das maiores tragédias climáticas do Rio Grande do Sul, as adutoras da Saturnino de Brito foram rompidas e uma nova possibilidade de abastecimento foi adicionada ao sistema.
– Na época das chuvas, quando perdemos as adutoras por gravidade, fizemos uma obra emergencial para adicionar mais uma tubulação. Então, a qualquer momento, podemos acionar mais uma bomba ao nosso sistema de abastecimento.
A barragem do DNOS, localizada em Santa Maria, também integra esse sistema e é responsável por cerca de 30% do abastecimento da cidade. A partir dela, a água inicia seu percurso: é captada no reservatório e, por meio de um sistema de bombeamento, segue até a Estação de Tratamento.
